Arquivo do mês: junho 2014

Humanos ou “Coisas”?

A omissão do Estado, a péssima estrutura policial e a mídia que veicula informações sensacionalistas, faz com que o negro, sobretudo jovem, seja visto como um ser coisificado. Vivenciando essa realidade, boa parte da sociedade naturalizou o extermínio cometido, de forma surreal contra estas pessoas que são discriminadas e mortas, não por seus ideais ou por seus atos, mas pela cor de sua pele.

Os índices são alarmantes. Somente em 2010, no Brasil foram assassinadas 49.932 pessoas, deste total, 53,3% eram jovens, dos quais 76,6% eram negros. Embora os números caracterizem um genocídio em curso, parte da população enxerga a morte da juventude negra como a eficiência das estruturas policiais.

Recentemente uma pesquisa revelou que o assassinato de uma pessoa negra, frustra consideravelmente menos à sociedade do que o assassinato de uma pessoa branca. Este levantamento reforça ainda mais a ideia do naturalismo empregado à barbárie, e nos faz refletir se o Estado nos defende ou nos confronta.

“Numa noite quando estava indo à faculdade, fui revistado duas vezes, pelo mesmo policial”, disse um estudante negro residente de área periférica, na Roda de Conversa sobre o Exterminio da Juventude Negra. Solução pra isso? Existe sim, a solução para termos uma juventude equitativa, não está na esfera criminal… más sim na inclusão.

Elias Lourenço  ,  Maceió-AL.

O responsável pelo conteúdo é o autor.

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Desabafo sobre a Copa

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Aquela alegria com gosto de hipocrisia me deixava enjoado. Os paulistanos que chegavam ao metrô e que nunca pisaram em Itaquera estavam mais perdidos que os gringos. Uma confraternização me levava à outra dimensão, aquilo que estava na minha frente não era real. O cerco policial isolou Itaquera do resto dos brasileiros, transformando numa fantasia padrão Fifa.

Junto com dois futuros jornalistas, encontramos pessoas que tentaram romper com o mundo encantado, a EXTREMA violência dos cães-de-guardas impedia que centenas de pessoas se manifestassem contra o Circo a Copa.

Um contingente militar de maior número que os próprios manifestantes, assustava quem passava por perto. Duas estações estavam fechadas como forma de prender os manifestantes naquela pequena rua até o apito final, uma estratégia covarde e proibida.

Algo pouco mostrado pela “imprensa marrom” é que os policiais agiram primeiro, a violência que PARTIU DELES foi cruel e não se importava quem fosse atingido por ela. A ação terminou com um saldo “positivo” de, pelo menos, cinco jornalistas feridos e dezenas de manifestantes sangrando.

Cansado de correr das bombas e balas de borracha, voltei para casa já tarde da noite. Achei no mínimo engraçado quando soube das vaias à Dilma. Tentei imaginar o que a pessoa que vaiava pensava: “Meu país está um lixo, vou vaiar porque ela está acabando com ele” … “Gol do Brasil!!”.

Lucas Antonio, São Paulo.

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Entre a Copa e o Dia dos Namorados o problema é mais embaixo.

Enquanto os olhares do mundo inteiro estão direcionados para a Copa do Mundo, esquecemos que o dia 12 de Junho não é apenas a data do primeiro jogo da seleção brasileira no mundial, tampouco de flores e corações do Dia dos Namorados. Hoje é um dia para permanecermos atentos com as nossas crianças. Sim, meus caros amigos da Rede Virtual, 12 de Junho é o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil.

Apesar da exploração sexual contra crianças ser um tipo de trabalho infantil, o segundo de um modo geral é mais fácil de ser detectado e infelizmente, acaba sendo mais “aceitável” por muitos.

Uma cena onde uma criança vende balas no trânsito das grandes cidades, não causa tanto espanto quando falamos de um caso de exploração e abuso sexual contra crianças e adolescentes. E há quem compre tais mercadorias com a desculpa de estar ajudando e segue vivendo a sua vida sem se importar, como se aquele R$1,00 pudesse mudar a realidade daquela criança.

Segundo pesquisas realizadas pelo IBGE no ano retrasado, cerca de 3,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 estão trabalhando(no presente mesmo, pois sabemos que pouco mudou). Isso apenas no Brasil, que fique claro. Entenda esses números:

Número de crianças e adolescentes que trabalhavam em 2012:

Faixa etária

Quantidade

De 5 a 9 anos

81 mil

De 10 a 13 anos

473 mil

De 14 a 17 anos

2,96 milhões

Total

3,51 milhões

Você com 6 anos estava assistindo desenho de manha, tomando o seu leite com chocolate e comendo biscoito, diferente das crianças de regiões mais pobres que levantavam – e ainda levantam – muito mais cedo para trabalharem em carvoarias, nas “roças” ou nas movimentadas avenidas das capitais. Crianças que não puderam gozar de sua infância, de sua inocência, pois tinham que ajudar a levar alimento para dentro de casa.

Podemos trazer estes fatos e dados para o atual momento do país e pensar: Imagina na Copa.

Quantas crianças serão vítimas de exploração sexual durante o evento? Quantas crianças serão obrigadas a vender balas, doces e afins próximas aos estádios?

Todos estão muito preocupados com as iminentes manifestações, com a violência, com os assaltos, mas que nossas crianças não sejam esquecidas. A Copa pode trazer muitos prejuízos para o nosso Brasil, mas se ela afetar as nossas crianças, os prejuízos jamais serão reparados.

Igo Bolleli, Minas Gerais.

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Nota

Aconteceu no dia 11/06, com participantes de diversos estados do Brasil o bate papo online, que teve como tema a Copa do Mundo de 2014. Os presentes deixaram explícitos o repúdio com os gastos exorbitantes do mundial. Rene Silva, fundador … Continuar lendo

Nota

Nem todos os alertas, todos os exemplos, todas as estatísticas e todos os argumentos irão acabar com a vontade de uma parte da população de diminuir a maioridade penal. Assim como acreditar em Papai Noel, essas pessoas acreditam que a … Continuar lendo

Seminário Mídia e Direitos Humanos

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Hoje participamos do Seminário Mídia e Direitos Humanos promovido pela ONG Cipó Comunicação Interativa, pelo O Centro de Comunicação, Democracia e Cidadania (CCDC) da Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pelo Intervozes.

O evento foi realizado no Colégio Estadual Dalva Matos,  no subúrbio de Salvador, com os alunos do ensino médio. Dando inicio as atividades, o professor Jeovandro, da Faculdade de Comunicação da UFBA, destacou a influência da mídia no cotidiano das pessoas.  “Os meios de comunicação segregam as pessoas. Como eu posso representar o outro nos meios de comunicação sem preconceito?”, disse.

A estudante Jaiana dos Santos, 15, manifestou indignação com que é transmitido nos programas policialescos. “A comunicação é um perigo para sociedade. A TV só passa coisas ruins sobre a favela, mas não é bem assim.” Paulo Vitor, do Intervozes, questionou o público. “Assistimos os programas policialescos, sensacionalistas por que queremos ou por que é o que tem?”. Logo em seguida, Paulo Vitor trouxe um exemplo de uma emissora de televisão que tinha um programa o qual violava os direitos humanos de homossexuais. Esse programa saiu do ar por 30 dias. Nesse período foram exibidos programas educativos e voltados a promoção da dignidade da pessoa humana. O resultado foi que a audiência triplicou. Isso significa que assistimos esses programas porque é o que tem.

A comunicação apesar de ser um direito, sempre foi tratada como negócio. Onde tem negócio, onde tem mercadoria há desigualdade. E por isso, os estudantes sugeriram que para exaltar a beleza e a cultura das periferias de Salvador, é necessário que os movimentos sociais e a sociedade civil unam forças para valorizar as mídias alternativas já existentes.

O pior analfabeto é o analfabeto midiático.

[Reproduzido da revista FORUM.com.br (em 20/08/2013)].

O analfabeto midiático

“Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões do jornalista Celso Vicenzi em torno de poema de Brecht, no século 21.

Por Celso Vicenzi, no “Outras Palavras”. 

O pior analfabeto é o analfabeto midiático.

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia.

Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: “Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual”.

Nota

“Qual não foi, porém a nossa decepção ao vermos que o idiota preconceito em vez de diminuir cresce […] que os soldados pretos que nos campos de batalha têm dado provas de heroísmo, são postos oficialmente abaixo do nível de … Continuar lendo